terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Livre-opinião

Estava lendo um livro hoje, O Livreiro de Cabul, da Asne Seierstad. Ela conta a história de uma família afegã com quem conviveu por um tempo, dentro da casa deles mesmo, abordando, além dos costumes, e diferenças culturais, também o impacto no modo de viver causado pelas guerras, desde o domínio russo, até a chegada dos americanos após o 11 de setembro. São muito interessantes as informações que o livro contém, muitas delas eu desconhecia completamente dos costumes muçulmanos, mas percebe-se, pelo menos até onde li, uma parcialidade forte da autora em relação aos relatos que presenciou. Não que isso seja ruim, acho que as pessoas devem poder expressar o que consideram certo ou errado, sem que haja qualquer tipo de censura, mas talvez falte uma tentativa maior de entender que o que retrata é uma cultura muito diferente da ocidental, e tentar entender também porque é assim, os motivos de ser diferente, e se a própria população quer ser diferente. Comecei a pensar nisso, pois há pouco tempo li uma reportagem numa revista (não lembro qual, desculpem, alguma revista que encontrei no consultório do fisioterapeuta, talvez a Época, só lembro das posições engraçadas em que eu tinha que ficar lendo =P) que falava justamente sobre o livro e alguns comentários que me permitiram questionar o que achamos certo ou errado como muito relativo, as nossas motivações e bases para o que pensar sobre essas questões são produto da sociedade em que vivemos: vivendo com as afegãs um tempo, conversando sobre casamento, a autora perguntou em certo momento o que elas achavam do sistema e comentou que aqui no Ocidente o casamento era livre, quando duas pessoas se amassem e quisessem casar, o fariam; elas, indignadas, responderam que esse sistema nosso devia ser muito ruim, se a família não aprovasse não seria correto, a probabilidade do casamento não dar certo seria muito maior etc A sensação que passou foi de que, acostumadas ao sistema delas, aquelas mulheres não se sentiam injustiçadas, porque era o "normal". Já no livro vejo bastante do contrário e uma tentativa de reafirmar que o ocidente é melhor mesmo, que nós estamos certos e eles errados, que a adaptação à chagada do ocidente é difícil porque são atrasados e que até mesmo algumas atitudes do livreiro, que são consequência da sociedade de lá, terminam passando a sensação de que são exclusivas de um homem, excessão, que não respeita as mulheres, que às vezes chega a não ser considerado "bom", quando simplesmente está seguindo a cultura dele. É claro que eu, como ocidental, acho que meus costumes são mais corretos e eles parecem intolerantes com certas regras, mas acho que a gente precisa tentar entender também o outro. É engraçado que no livro, pelo menos até onde li (que é bem no início), quando fala sobre costumes afegãos que o livreiro não cumpre, também surge uma certa hostilidade com a atitude, ou seja, há uma reprovação constante no modo de agir dele, seja por seguir os costumes afegãos, seja por não seguí-los, mas veremos, talvez até o fim do livro eu ainda posso mudar de opinião.

Um filme que vi esses dias e que se relaciona também a essa questão do ponto de vista é Marie Antoinette, da Sofia Coppola. Apesar de todas as críticas sobre o filme, achei bem interessante. Quando estudei Revolução Francesa na escola, imaginava Maria Antonieta quando guilhotinada como uma velha frívola, que desprezava seu povo, ainda mais com aquela história de "não tem pão, que comam brioches". Mas o filme passou uma visão diferente, e acho que bastante real até, em que Luis VI e Maria Antonieta também poderiam ser, ao invés de malvados absolutistas, produtos da sociedade aristocrática da época que não os preparou para nada que viessem a enfrentar tanto na vida como no reinado, eram crianças quando se casaram, que não estavam preparadas para isso, assim como quando foram forçados a assumir o trono, não passavam de crianças assumindo o controle de um país. Não que fossem maus, mas nunca puderam crescer, nunca tiveram como querer cuidar de um país e entender sua situação. Por coincidência ou não, justo domingo veio uma matéria no MAIS da Folha em que o psicólogo Renato Janine Ribeiro, falando sobre o assassinato terrível do João Hélio no Rio, e a maldade em certas pessoas, citou uma frase em que dizia exatamente isso sobre Luis XVI, que não foi assassinado por ser mau, até era boa pessoa, mas foi guilhotinado por ser rei. Não sei se isso é real, mas bom ter mais de uma opção para acreditar.
Toda essa história, foi para dizer que o ponto-de-vista dos acontecimentos e situações podem variar muito de pessoa para pessoa, e acho válidas as representações desses pontos-de-vista, o único necessário é que as pessoas em geral tomem conciência de que a expressão de um ponto-de-vista não precisa e não deve ser tomada como verdade, mas como uma possibilidade da verdade, se quer concordar ou não, fica a critério de cada um. Daí que vem o respeito pelo artista que o Thom Yorke disse num dos ultimos posts do seu blog, retrucando uma frase de um certo outro artista =P (respeito esse aplicável também às pessoas em geral, artistas ou não):

" ´I never went to f****** university. I don’t know what a paint brush is, I never went to art school.`

i did. it taught me to respect other artists."
www.radiohead.com/deadairspace/index.php?a=214

É que às vezes eu me revolto, as pessoas muitas vezes não respeitam às outras, nem a si próprias, e menos ainda quando se trata de artistas, cada um como ego superior ao outro, e que, se não cai em brigas infundadas, podem cair no silêncio, no sentimento de que é inutil criticar para quem não quer ouvir, situação essa bastante perigosa para o desenvolvimento de qualquer artista. Já me senti uma idiota por não gostar de São Paulo S.A. que é idolatrado por muita gente, mas acho mal-representadas mesmo muitas das questões que se discute sobre ele, como se a discussão precisasse fazer um esforço para encontrar, num tema interessante, tudo que ele quer representar, não necessáriamente representou. Mas se para alguns o que está lá foi suficiente, acho que está tudo bem, mas eu não consegui sentir o filme, não me tocou. E não acho que eu esteja errada também, nem eles, mas sentimento é algo que não se força, existe ou não existe em cada pessoa, em cada caso, mas o cinema ainda acredito que é feito para sentir algo, ou dizer algo, quando atinge alguém está bem então, mesmo que todos digam o contrário. Só acho que todas as opiniões devam ser respeitadas, não algumas pessoas ficarem com ar de superiores por terem determinadas opiniões, é direito de todos tê-las distintas (desde que a opinião implique em respeito ao outro também né).

Agora pra alegrar o dia, depois de todo esse texto =P um video muito engraçadinho, eu acho, mas se vcs não acharem td bem =P:
www.youtube.com/watch?v=vnpsPYv9EYk

E só para acabar algo que não comentei, achei muito legal as músicas do Marie-Antoinette, são novas, há rock, Strokes, é obvio que naquela época não existia esse ritmo, mas a sensação que passava, e o significado que tinha, uma música dos fins do sec. XVIII para os personagens é totalmente distinto do que teria para nós essa mesma música. E a inserção de músicas atuais acho que puderam expressar e fazer sentir melhor o que os personagens sentiam na época, que com certeza não era uma sensação de épocas passadas, nem de clássicos, eles viviam a atualidade deles é claro, e nós precisávamos sentí-la.

3 comentários:

Anônimo disse...

Huum, legal o post!
Às vezes é difícil ver o outro ponto de vista, de tão certos estamos que o nosso é o correto, mas sempre é bom olhar por outro lado - não necessariamente para mudar de opinião, mas ter uma visão mais ampla das coisas ;)
Beijo,
Giu

Anônimo disse...

nesse ponto eu gosto da idéia do cubismo... pegar uma imagem sob as mais diversas perspectivas possíveis, "recortar" os vários flashes fotográficos e colar umas sobre as outras num único plano, ver o "tudo ao mesmo tempo agora" de uma situação sendo ainda uma só pessoa...

já li várias vezes que a humanidade adora símbolos, tanto para amar quanto para destruir... pq td bem, jogar uma aliança de casamento pela janela pode não ser tão divertido quanto defenestrar um cônjugue chato do 15o andar, mas pelo menos não se é preso por isso, neh? =P
e vc ainda quer símbolo melhor do que cabeças sem corpos e o resto dos corpos jorrando sangue? é só por isso que eu gosto de história geral hahaha \m/

e hoje vc quem nas entrelinhas puxou o assunto da 'tia' na infancia... imaginei uma daquelas tirinhas de jornal
"mandar alguém q falou mal da sua comida ir pastar: -10 anos de terapia
mandar alguém q duvidou do seu bom gosto se ferrar: -50 anos d terapia
mandar alguém q te deixou um trauma de infancia pro inferno: -10000000 anos d terapia" :P

bjooo

Anônimo disse...

ps: acho que demorei muito pra pensar nesse meu comentário, sua irmã comentou antes =P